Os quatro amores - por Isaías Oliveira, jornalista, compositor e produtor cultural. 

Cair na estrada, cultivar um jardim, aprender um novo idioma, praticar mergulho ou escalar uma montanha, são itens de boa parte das listas de coisas que você deveria fazer quando chegar aos 50 anos. Para o nosso deleite, o cantor e compositor Gerson Borges resolveu ignorar, pelo menos por enquanto, estas sugestões e canalizou suas energias, criatividade e talento na produção de mais um álbum que tem tudo para cair no gosto dos amantes da boa música brasileira.

Tendo como foco apenas os trabalhos que se basearam especificamente em obras literárias, depois do antológico A Volta do Filho Pródigo, musical baseado no livro homônimo do teólogo e escritor holandês Henri Nouwen, o músico carioca nascido em Campinho, tradicional bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro e terra da atriz Fernanda Montenegro, lança o olhar para a obra de um dos seus autores preferidos, o célebre professor universitário, romancista, poeta e ensaísta irlandês C. S. Lewis, criador da série clássica As Crônicas de Nárnia.

As onze canções do álbum Os Quatro Amores, são inspiradas na obra de C.S. Lewis que leva o mesmo nome e explora a natureza do amor na perspectiva cristã. Diferenciando a necessidade de amor (como o amor de uma criança pela sua mãe) e o amor divino (De Deus para a humanidade), Lewis discorre sobre as naturezas mais básicas do amor até as mais complicadas e divide o amor em quatro categorias, baseadas nas quatro palavras gregas para o mais nobre dos sentimentos: storge (amor fraternal), philis (amizade), eros (amor romântico) e ágape (amor incondicional).

E sob a perspectiva do cenário desenhado pelas mãos hábeis de Lewis, à medida que escutamos cada uma das canções do álbum, somos desafiados a ouvi-las com outros ouvidos, num delicioso exercício de tentar “encaixá-las” em uma das categorias de amor propostas pelo autor. As músicas Para os Meninos e Sobretudo Quando Chove, por exemplo, nos remetem ao amor fraternal (storge), descrita como a mais natural, emotiva e difundida forma de amor. Já Cafezinho e Manda Lembrança, falam sobre a amizade (philia), que, entre outras coisas, é aquela forte ligação entre pessoas que compartilham um interesse ou uma vida em comum, e que, segundo o próprio C.S.Lewis, é o mais admirável dos amores porque ele não olha o amado (como o eros), mas ele olha em busca do “embasamento”- por que o relacionamento lhe deu forma. A amizade em si é o maior dos bens.

Mas, para além das questões abordadas pela obra literária que norteou a produção do álbum, Os Quatro Amores é mais um trabalho consistente e coerente deste multifacetado artista. A produção, feita a quatro mãos por Gerson Borges e Paulo Nazareth, é impecável e esmerada e as participações, pra lá de luxuosas, traz nomes conhecidos da música cristã contemporânea, como Marcos Almeida, Leonardo Gonçalves, Paulo César Baruk, Banda de Boca, Salomão do Reggae e Estevão Queiroga, além da talentosa cantora e compositora carioca Amanda Rodrigues, com quem dividiu a autoria de Cafezinho, uma das mais deliciosas canções do disco.

A ficha técnica traz ainda uma quantidade incrível de músicos talentosíssimos, entre eles, Pantico Rocha, Carlos Bala e Marcinho Teixeira (baterias), Serginho Carvalho e Daniel Magalhães (baixos), Stanley Wagner e Jorge Ervolini (guitarras), Samuel Murad, Héber Ribeiro e André Mehmari (pianos e teclados). Vale mencionar a estreia em estúdios de gravação de Bernardo Luz Borges, filho mais velho de Gerson e Cinha, responsável pelo piano na música Sem Direção.

Segundo a escritora e poetisa gaucha Lya Luft, a chegada à maturidade nos permite olhar a vida com menos ilusões, aceitá-la com menos sofrimento, entendê-la com mais tranquilidade e a querê-la com mais doçura e delicadeza. E se há, entre tantas outras, duas palavras que definem Os Quatro Amores são maturidade e delicadeza. Neste novo trabalho, Gerson Borges chega a “velhice”, como ele mesmo costuma brincar, olhando para o futuro, mas sem perder de vista a sua história, redescobrindo memórias, revisitando varandas e quintais. O álbum é repleto de referências que acabam por provocar sensações que costumamos chamar de a melancolia das lembranças, muito comuns quando abrimos aqueles antigos baús esquecidos no sótão ou folheamos velhos álbuns de fotografias.

Grande parte das músicas são de uma delicadeza de marejar os olhos, não há como ouvir e não se emocionar ou “não sentir saudade de uma velha amizade que ainda nem começou”. Assim como não há como ouvir e não sentir vontade de procurar aquele amigo que não vejo há anos, de comer paçoca ou geleia de amora, de passar em frente à casa que morei na infância, de passear de mãos dadas com a mulher amada. Bem, estas foram algumas das sensações que Os Quatro Amores causaram em mim. Se após ouvir, você for tomado por outras, a gente pode marcar um cafezinho, seria muito bom ouvir mais um pouquinho de você.  

© ℗ 2019 Gerson Borges